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A Cidade Inteligente que aprende: quando a academia e os alunos aceleram a transformação de Lagoa

  • 3 de fev.
  • 8 min de leitura
Rui Mesquita apresenta a alunos a Sala de Operações SmartCity Lagoa, com monitores e sistemas de monitorização em tempo real.

Há uma ideia recorrente, e perigosa, de que uma Cidade Inteligente é, sobretudo, um conjunto de gadgets: sensores aqui, dashboards ali, uma app acolá. Essa visão reduz a transformação urbana a “caprichos tecnológicos” e ignora o essencial. Na prática, uma Cidade Inteligente é a capacidade instalada para decidir melhor, mais depressa e com mais segurança, sustentada por dados fiáveis e por processos operacionais que funcionam diariamente. E a capacidade instalada significa, inevitavelmente, pessoas: equipas, competências, rotinas, responsabilidade e liderança técnica.


Por isso, uma Cidade Inteligente não se constrói apenas com sensores, dashboards e plataformas. Constrói-se com um ecossistema que aprende, pessoas, processos, conhecimento e uma cultura de melhoria contínua. Em Lagoa, a tecnologia tem sido um meio para um fim muito concreto: tornar a decisão pública mais informada, mais antecipatória e mais robusta.


No centro desta abordagem está a Sala de Operações da SmartCity: Lagoa, um centro de comando que opera 24/7, agregando e analisando dados recolhidos por sensores e sistemas distribuídos pelo território, da água e resíduos à qualidade do ar, mobilidade e equipamentos urbanos. Assente numa infraestrutura LoRaWAN implementada pioneiramente em 2018, esta operação permite monitorização em tempo real, deteção de anomalias, antecipação de risco e coordenação eficaz entre serviços municipais, transformando dados dispersos em ação operacional (conforme descrito na Security Magazine).


"Há uma ideia recorrente, e perigosa, de que uma Cidade Inteligente é, sobretudo, um conjunto de gadgets: sensores aqui, dashboards ali, uma app acolá." - Rui Mesquita, Técnico de Informática no Município de Lagoa

Rui Mesquita e equipa na SmartCity Lagoa na Sala de Operações, com mapa em tempo real no videowall e monitores de gestão no primeiro plano.

É precisamente aqui que a academia e os alunos ganham um papel estratégico, muitas vezes subestimado. Não como “visitas de estudo” ou iniciativas simbólicas, mas como um verdadeiro motor de inovação aplicada: desafios reais do concelho tornam-se casos de aprendizagem; protótipos evoluem para componentes testáveis; e o município consolida um pipeline de competências que reforça a sua autonomia tecnológica. Quando esta ligação é bem desenhada, com objetivos claros, acesso controlado a dados, mentoria, requisitos de qualidade e segurança e métricas de validação, a Cidade Inteligente deixa de ser um “projeto tecnológico” e passa a ser uma competência coletiva, replicável e sustentável, que se aperfeiçoa a cada iteração.


A Sala de Operações e o território como “laboratório vivo” (living lab)

Quando um município abre portas à academia, às escolas e aos cursos técnicos, não está a “pedir ajuda”; está a construir um laboratório vivo, um modelo de aprendizagem aplicada e de inovação com impacto direto no território. A Cidade Inteligente deixa de ser um conjunto de iniciativas isoladas e passa a funcionar como um ecossistema que aprende, onde a operação diária alimenta conhecimento e o conhecimento melhora a operação.


Este modelo cria um ciclo virtuoso, muito concreto:

  • Problemas reais do concelho tornam-se desafios para projetos aplicados de alunos e investigadores;

  • Protótipos e modelos evoluem para pilotos testados em ambiente controlado;

  • Pilotos que demonstram valor passam a rotina operacional, com métricas, responsabilidades e SLA;

  • A própria operação gera novos dados, que alimentam novas hipóteses, novas perguntas e novos temas de investigação.


O ganho é duplo. Por um lado, os alunos aprendem em contexto real, dados, redes, operação, segurança e constrangimentos do serviço público. Por outro, o município ganha provas de conceito, componentes testáveis e talento em formação, e a comunidade beneficia de soluções mais ajustadas e de uma cultura de participação.


A diferença entre uma boa intenção e um modelo verdadeiramente transformador está na execução: projetos com entregáveis claros, mentoria técnica, acesso controlado a dados e integração numa lógica operacional, e não apenas num “projeto à parte” que morre quando termina o estágio.


Em Lagoa, esta lógica é particularmente visível na forma como os estágios e projetos se ligam a necessidades concretas e mensuráveis: cibersegurança IoT, qualidade do ar, arborização, mobilidade, turismo e até ensaios inspirados em engenharia espacial. É esta articulação entre território, operação e aprendizagem que transforma uma Cidade Inteligente numa competência coletiva, sustentável e replicável.


"Quando um município abre portas à academia, às escolas e aos cursos técnicos, não está a “pedir ajuda”; está a construir um laboratório vivo, um modelo de aprendizagem aplicada e de inovação com impacto direto no território." - Rui Mesquita, Técnico de Informática no Município de Lagoa

Alunos do 7.º ano apresentam o protótipo do projeto LET: Lagoa em Trocas, com código aberto num ecrã ao fundo.

Caso 1 | LET: quando uma ideia escolar se torna protótipo municipal


O projeto LET: Lagoa em Trocas começou numa turma do 7.º ano (disciplina de Cidadania e Desenvolvimento) e ganhou nova dimensão com o envolvimento de estagiários do 12.º ano do curso técnico de gestão e programação de sistemas informáticos (ESPAMOL), já integrados no Serviço de Smart City do Município. O resultado foi direto: transformar a ideia original num protótipo tecnológico, valorizando a aplicação prática do que se aprende em contexto escolar. (Fonte: Câmara Municipal Lagoa).


Este tipo de iniciativa é, na prática, “inovação cívica” com pipeline técnico: a escola identifica um desafio, os alunos conceptualizam, e os alunos mais avançados (ou em estágio) materializam numa solução testável. A Cidade Inteligente deixa de ser um conceito e passa a ser um ambiente de aprendizagem e criação com impacto local.


Estagiários Erasmus+ e equipa municipal posam no edifício do Município de Lagoa, no âmbito do programa anual de estágios.

Caso 2 | Erasmus+ e a internacionalização de competências


A ligação entre alunos e o Município não é recente e, sobretudo, não é pontual. Em contexto Erasmus+, Lagoa tem acolhido todos os anos quatro estagiários, num modelo consistente de mobilidade individual para fins de aprendizagem. Os primeiros chegaram através da parceria “Lagoa Cidade Educadora” e a ESPAMOL, com estágios de três semanas enquadrados por coordenação docente e orientados para capacitação técnica e competências interculturais.


Ao longo dos anos, esta dinâmica tem gerado entregáveis concretos e diversificados, desde boias oceânicas (com potencial para monitorização e recolha de dados ambientais) a plataformas educacionais para microcontroladores, reforçando a vertente de prototipagem e literacia tecnológica aplicada. Mais recentemente, o programa evoluiu para desafios tecnicamente mais ambiciosos, como o desenvolvimento de conceitos e protótipos associados a um “Space Lab” / CubeSat com integração de comunicações LoRaWAN, que eleva o rigor de engenharia e a disciplina de documentação para patamares muito exigentes.


Este tipo de experiência tem um valor “invisível” mas decisivo: obriga a comparar práticas, padrões e formas de pensar. Numa Cidade Inteligente, essa diversidade melhora a qualidade da solução porque força a justificar decisões, documentar, normalizar e “falar a língua” dos standards, transformando a curiosidade académica em maturidade operacional e criando, ano após ano, um verdadeiro pipeline de competências e protótipos com aplicabilidade no território.


Caso 3 | Cibersegurança aplicada: estágio com impacto operacional


Uma Cidade Inteligente madura tem de ser segura por defeito. Em Lagoa, a componente de cibersegurança foi tratada como engenharia (e não como checklist), com protótipos funcionais construídos e testados em articulação com equipas técnicas e projetos de estágio: AES-128, validação de chave, autenticação por DevEUI e número de série, dados estruturados com timestamp, mitigação de replay, e até medidas adicionais como ofuscação e MFA. (Fonte: Security Magazine).


O mais relevante é que estes avanços não ficaram “na bancada”: foram aplicados a sensores reais no terreno, reforçando integridade e confiança na decisão operacional.


Caso 4 | Qualidade do ar: dados municipais + BI/ML em contexto de estágio


A lógica “academia → operação” vê-se bem em projetos de análise e previsão. Um exemplo recente, divulgado publicamente, refere um protótipo para prever o European Air Quality Index (EAQI) com base em dados de 10 estações municipais de monitorização ambiental, cruzados com variáveis meteorológicas, usando BI e técnicas de machine learning, desenvolvido em contexto de estágio. (Fonte: LinkedIn).


Isto mostra um padrão replicável: a autarquia garante dados e contexto; o aluno entrega modelo, protótipo e documentação; e a operação valida se aquilo melhora (ou não) a tomada de decisão.


Caso 5 | Tree-Aware: sensorização que serve manutenção e gestão verde


A Cidade Inteligente também é natureza instrumentada, no bom sentido: medir para gerir melhor. O projeto Tree-Aware descreve sensorização aplicada a árvores (medição de variações micrométricas no tronco, em baixo consumo), traduzindo sinais biológicos em indicadores úteis (ex.: stress hídrico), com ambição de integração operacional e abertura a colaboração com academia e cidadania. (Fonte: LinkedIn).


Este é o tipo de “vertical” que beneficia enormemente da academia: biologia, ambiente, engenharia, analítica, e, sobretudo, validação científica do que os dados significam.


Participantes do Lagoa Space Lab reúnem-se na SmartCity Lagoa para desenvolver e testar protótipos, no âmbito do projeto CubeSat 2U.

Caso 6 | Space Lab e CubeSat 2U: aprender com restrições “aeroespaciais”


Um dos exemplos mais interessantes desta cultura de aprendizagem é o Lagoa Space Lab, que propõe um CubeSat 2U como plataforma de ensaio em laboratório (“satélite de bancada”), não para lançamento, mas como acelerador de competências em comunicações, energia, controlo e análise de dados. O artigo descreve o enquadramento, a modularidade (10×10×20 cm) e objetivos técnicos, incluindo experiências com LoRa/LoRaWAN e simulação de canais com perdas/latência , uma forma extremamente eficaz de transferir rigor de engenharia para o contexto urbano. (Fonte: LinkedIn)



Complementarmente, é referida uma dinâmica de estágios que liga “órbita e cidade”, onde alunos trabalham em projetos reais (LoRaWAN/NB-IoT, ingestão/validação de dados, pipelines e dashboards), reforçando competências transversais entre telemetria e gestão urbana. (Fonte: LinkedIn).


O que se ganha com isto (e o que medir)


Para transformar estas iniciativas em política consistente, e não em episódios isolados, vale a pena pensar em métricas simples:


  • Número de projetos/protótipos por ano (e quantos chegam a piloto);

  • Tempo médio de “ideia → prova de conceito”;

  • Percentagem de projetos com requisitos de segurança e qualidade de dados;

  • Número de alunos/estagiários integrados em equipas e não em tarefas avulsas;

  • Reutilização (componentes, modelos de dados, dashboards, conectores).


O ganho mais difícil de medir, mas talvez o mais importante, é cultural: a redução da aversão ao risco, mais abertura à cocriação e melhor maturidade na gestão de informação, que é frequentemente apontada como alavanca para mudar o modelo de gestão urbana. (Fonte: Tek Notícias).


Reconhecimento e comunidade: não se faz sozinho


Quando este trabalho é consistente, tende a ser reconhecido e, mais importante, partilhado. A atribuição de um Prémio Inovação no contexto do Encontro de Utilizadores do City as a Platform é um exemplo de como a integração de dados, sensorização e interoperabilidade pode ser valorizada. Algarve Primeiro O próprio encontro (com participação alargada e lançamento de prémios) demonstra que existe uma comunidade ativa e um espaço para disseminar boas práticas entre municípios. (Fonte: Algarve Primeiro, Smart Cities).


Luís Encarnação, Presidente do Município de Lagoa, discursa no 3.º Encontro de Utilizadores do City as a Platform após receber o Prémio de Inovação.
Lagoa recebe o Prémio de Inovação no 3.º Encontro de Utilizadores do City as a Platform

Em paralelo, iniciativas nacionais como os Prémios Portugal Smart Cities Summit: António Almeida Henriques reforçam que a inovação municipal (incluindo modelos de parceria com escolas e academia) tem palco e critérios de valorização. (Fonte: Smart Cities).


Um modelo replicável em 6 passos (para qualquer município)


Para os municípios que querem começar (ou estruturar melhor), deixo uma abordagem pragmática:


  1. Backlog de desafios reais (problemas concretos do território, com donos e prazos).

  2. Protocolos com escolas/universidades (objetivos, calendarização, mentoria, confidencialidade/RGPD quando aplicável).

  3. Ambiente “sandbox” (dados anonimizados ou simulados; APIs; documentação mínima).

  4. Regras de qualidade e segurança desde o início (validação, logs, autenticação, princípios de minimização de dados).

  5. Integração com operação (um protótipo só “conta” quando consegue ser observado/monitorizado e testado).

  6. Showcase e repositório (catálogo de projetos, lições aprendidas, componentes reutilizáveis).


Este modelo não exige orçamento elevado para começar. Exige disciplina, método e liderança técnica.


"A Cidade Inteligente do futuro não será a cidade com mais sensores. Será a cidade com maior capacidade de aprender, adaptar e operar com segurança, com processos claros, dados bem governados e decisões sustentadas por evidência." - Rui Mesquita, Técnico de Informática no Município de Lagoa

Conclusão: a Cidade Inteligente não é um produto, é uma competência


O que estes exemplos evidenciam é simples: quando a academia entra na equação, a Cidade Inteligente ganha velocidade, rigor e verdadeira capacidade de inovação aplicada. A plataforma City as a Platform dá escala à integração e à interoperabilidade; a Sala de Operações dá contexto, exigência e contacto com a realidade; e os alunos acrescentam energia, criatividade e disponibilidade para experimentar, desde que exista método para transformar protótipos em valor operacional.


A Cidade Inteligente do futuro não será a cidade com mais sensores. Será a cidade com maior capacidade de aprender, adaptar e operar com segurança, com processos claros, dados bem governados e decisões sustentadas por evidência. Nesse caminho, alunos e academia não são “convidados” ocasionais: são parte do motor, porque ajudam a converter desafios do território em aprendizagem aplicada e aprendizagem em melhoria contínua.


Em Lagoa, esta é a ambição: uma Cidade Inteligente que não se limita a “ter tecnologia”, mas que aprende com ela, com as pessoas e com as instituições que a rodeiam. Se conseguirmos transformar cada território num verdadeiro laboratório vivo, com desafios reais, dados reais (bem governados) e prototipagem responsável, estaremos simultaneamente, a formar talento, a reforçar serviços públicos e a construir cidades mais resilientes, inclusivas e tecnologicamente preparadas.

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