O que as ciclovias de Lisboa nos ensinam
- Ana Guerra

- há 19 horas
- 5 min de leitura

Nos últimos anos, Lisboa transformou-se num laboratório vivo de mobilidade suave. A bicicleta passou a fazer parte do discurso político, dos planos de mobilidade e, cada vez mais, do quotidiano de quem se desloca na cidade. Hoje, já não falamos apenas de “meia dúzia de ciclovias”, mas de uma rede com escala, com um sistema de bicicletas partilhadas robusto e com um plano claro de expansão.
De acordo com o plano da rede ciclável do município, Lisboa tem atualmente cerca de 173 km de rede ciclável e quer chegar, até ao final de 2025, aos 263 km. Isto significa acrescentar:
+90 km de novas ciclovias, um crescimento de cerca de 50%
+56 novas ligações para “coser” a malha existente
Um investimento de cerca de 13 M€, incluindo uma verba específica para manutenção (1,7 M€)
As principais ciclovias de Lisboa
A rede ciclável de Lisboa já não são apenas troços dispersos. Hoje, é possível falar em “corredores” cicláveis estruturantes, que suportam deslocações diárias e não apenas passeios de fim de semana.
Alguns exemplos:
Eixo Ribeirinho
Cerca de 20 km praticamente planos ao longo do Tejo, ligando Belém, Cais do Sodré/centro e Parque das Nações.
É hoje um dos percursos mais utilizados, tanto por quem se desloca para o trabalho como por quem pedala em lazer.
Eixo Central / Avenidas Novas – Saldanha – Alameda
Concentra uma parte importante das viagens casa-trabalho e casa-faculdade.
Liga zonas densas de emprego, serviços e ensino superior.
Ligações a Monsanto e aos bairros residenciais
Corredores cicláveis que aproximam zonas residenciais do grande parque urbano.
Importantes para o lazer, mas também para quem procura alternativas diárias ao automóvel.
GIRA: a rede de bicicletas partilhadas
É impossível falar de ciclovias em Lisboa, sem falar da GIRA, o sistema de bicicletas partilhadas de Lisboa. Os dados abertos da GIRA disponibilizam as localizações das estações, número de bicicletas disponíveis e estações livres, características e horários de funcionamento. Isto permite analisar que estações estão a ser sub ou sobre-utilizadas e simular o impacto de novas estações em termos de cobertura populacional.

Alguns números recentes do Jornal de Notícias:
195 estações espalhadas pela cidade, com mais de 2 000 bicicletas (clássicas e elétricas).
A rede já chegou às 24 freguesias de Lisboa – a Ajuda foi a última a receber estações em 2025.
Desde 2017, foram realizadas mais de 12 milhões de viagens, totalizando mais de 40 milhões de quilómetros percorridos.
Com a expansão até à Ajuda, a rede GIRA passou a estar presente em todas as 24 freguesias. Porém, servir todas as freguesias, não é o mesmo que oferecer o mesmo nível de serviço em toda a parte. A análise aos dados da própria GIRA mostra que há áreas muito bem servidas, com estações a curta distância a pé, e outras em que, apesar de já existirem docas, as pessoas continuam a ter de andar vários minutos até encontrar uma bicicleta disponível. Algo semelhante se passa com as ciclovias: há troços contínuos e intuitivos, e há pontos onde a infraestrutura “desaparece” em cruzamentos complexos ou perde qualidade exatamente onde o tráfego automóvel é mais intenso.
Esse desfasamento fica particularmente claro quando olhamos para a avaliação de risco recentemente feita pelo Automóvel Club de Portugal. Segundo esse estudo, mais de 75% da rede ciclável de Lisboa necessita de melhorias urgentes: 24,38% apresenta risco baixo, 53,53% risco médio, 14,91% risco elevado e 7,18% risco extremo. Ou seja, a cidade deu um salto quantitativo importante, mas ainda tem um caminho significativo a percorrer em termos qualitativos, sobretudo em cruzamentos, interfaces com o trânsito motorizado e ligações a escolas e universidades.
Lisboa mostra, na prática, porque é que a discussão já não pode ser apenas sobre “quantos quilómetros” de ciclovia existem, mas sim sobre que dados usamos para os planear, priorizar e melhorar. E é aqui que entram as Plataformas de Gestão Urbana.
As vantagens de ligar estes dados ao City as a Platform
Se juntarmos numa mesma plataforma os dados geoespaciais das ciclovias existentes e planeadas, a localização das estações GIRA, a distribuição da população, das escolas, das universidades e dos interfaces de transporte, começamos a ter uma visão muito mais rica da cidade. Passamos a conseguir responder a perguntas como:
Quantas pessoas vivem a menos de cinco minutos de uma ciclovia?
Que freguesias têm uma boa cobertura de GIRA, mas más ligações em termos de infraestrutura ciclável?
Onde se concentram as ocorrências reportadas por ciclistas e peões?
É precisamente este tipo de perguntas que o City as a Platform ajuda a responder. Na prática, funciona como um “cérebro” geoespacial para o município: integra dados da rede ciclável, da GIRA, de obras, trânsito, ocorrências e participação dos cidadãos, e expõe tudo isso em dashboards e aplicações que as equipas técnicas conseguem criar e adaptar sem depender de desenvolvimento à medida.

Para ver isto na prática, convidamo-lo a explorar a aplicação que desenvolvemos para a Câmara Municipal de Lisboa, onde é possível acompanhar em mapa as estações e bicicletas GIRA, bem como a sua disponibilidade em tempo real. É um exemplo concreto de como o City as a Platform transforma dados dispersos em informação útil para o executivo, equipas técnicas e cidadãos.
Explore a aplicação: https://lisboa.city-platform.com/app/?a=redeciclavel
Do ponto de vista político, isto é ouro: quando o executivo assume a meta de acrescentar 90 quilómetros de ciclovias, precisa de demonstrar que está a investir nos sítios certos, a reduzir risco nos troços mais problemáticos e a aproximar a rede de quem mais pode beneficiar dela: alunos, trabalhadores, moradores em zonas mal servidas de transporte público. Do ponto de vista técnico, é a diferença entre gerir uma rede complexa “à vista”, com base em percepções e gerir com base em evidência e modelos que podem ser atualizados praticamente em tempo real.
Principais conclusões sobre as ciclovias de Lisboa
O caso das ciclovias de Lisboa ensina, em resumo, três coisas a qualquer município que queira seguir o mesmo caminho:
Primeiro, que crescer em quilómetros é importante, mas não chega: a rede tem de ser contínua, legível e segura, ou as pessoas simplesmente não a usam.
Segundo, que sem dados, sobre risco, utilização, cobertura por freguesia, é muito fácil criar uma rede que fica bem no mapa, mas falha no terreno.
Terceiro, que a infraestrutura física precisa de uma infraestrutura digital por cima: uma plataforma urbana capaz de ligar tudo, da ciclovia à bicicleta partilhada, das ocorrências ao planeamento, e de transformar essa informação em decisões concretas.
Se está a planear reforçar a mobilidade suave no seu território, talvez a pergunta certa não seja apenas “quantos quilómetros vamos construir?”, mas também:
“Que dados vamos usar para decidir e em que plataforma os vamos ligar?”
É aqui que Lisboa e o City as a Platform, têm muito para ensinar.



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